domingo, 28 de março de 2010

A Loucura

Há reinos curiosos que os homens ignoram tanto quanto temem. Apavoram-se com sua lógica cheia de arabescos, barrocas contorções, retóricas cheias de emoção e histeria. Quão estranho é este medo humano da loucura, quão razoável este pavor às idéias dos insanos. Esta verdade só me confirma a verdade de que o horror é posterior ao conhecimento - nada impedindo que depois do conhecimento ele perdure. De fato, não faço aqui nenhuma conclusão digna dos anais da psicanálise, seus arquétipos e patologias. O escuro na infância, a sensação de desproteção que as trevas provocam em seu mundo de formas vacilantes e contornos dúbios nos fazem a melhor das provas. Enfim, é curioso o medo que o vulgo tem da loucura, da loucura e sua tragédia e sua comédia.
Duvido haver alguém conhecido menos que dois loucos. A memória humana parece uma pinacoteca da insânia alheia. Dada aquela contemplação surpresa lembramo-nos daqueles causos tão absurdos. Eu, por exemplo, talvez por substrato geral do destino de todos os escritores, posso citar pelo menos quatro casos de loucura.
Caminhando por algum destes charmosos bairros cariocas, onde o sol e a moda reluzem em toda a sua grandeza sobre todos os corpos com alegria, vi um caso peculiar de um homem, um desses famintos que infectam o mundo, passantes cheios de pestilência a violentar o belo nas suas mais elevadas aras. Muito bem, este pateta se esgoelava em prantos e arranhões, invocando a todos os elegantes transeuntes, implorando o dinheiro. Com a naturalidade que existe no comportamento do brasileiro, nossos compatriotas fizeram as vezes de surdos. Ora, não é este homem um insano? na fome angustiante ele pede o dinheiro, porém não pede comida? Podemos tratar por duas conclusões que só nominalmente podemos chamar de lógicas: gostaria este falido de escolher o que comeria, seu devido acompanhamento, o que beberia junto, o que o faz um louco por não ver sua própria condição e o desespero de sua necessidade. Aqui podemos ver a loucura da nesga dessa dignidade boçal. Noutra perspectiva a fome de nosso miserável pensava comer o dinheiro para matar a fome. Aqui caso sem muito valor - ambos somos amantes da novidade, este ópio do cérebro - sem muito valor por tratar-se da hipótese de uma loucura tradicional, sem importância.
Outro caso de loucura é desses que um homem sempre se lembra. Sim, envolvia uma mulher. Melhor, era uma menina ainda, no auge da beleza de sua juventude. Em espírito principalmente, por fazer tudo aquilo que fazia com ares de brincadeira. Entretida e compenetrada qual a criança com seu brinquedo. Detestava, disso lembro-me bem, de tudo que não podia tomar por brincadeira. Seu grande jogo era o corpo, adorava estes jogos lúdicos e sadios dos homens e das mulheres, sem qualquer preferência por uma modalidade do jogo, sem queixas quanto ao outro jogador, ou mesmo aos outros jogadores. Cada jogo, gracejo, esporte eram fonte de um frenesi mais potente em sua beleza sórdida que todo o frenesi da vida íntima. Como toda criança, era egoísta e se entediava fácil. Não do jogo! Jamais do jogo! entediava-se dos jogadores. Qual a menina que quer mais bonecas pois as outras já estão antigas, qual o animal faminto, ela dispensava os parceiros após uma, duas, três rodadas, já enfastiada. Ria ao lembrar do choro dos amantes e das amantes enquanto estes declaravam seu amor premeditado a esta Divindade-Bacantes. Não vou dizer que há aqui uma loucura do amor. Por comodidade, darei aqui a alcunha de loucura báquica.
Agora tomo consciência. Não são quatro casos de loucura, são três. Melhor, não há certeza se existem quatro casos de loucura que lembro em minha vida. vamos colocar aqui como número certo o três. Dois já passados, um outro ainda, eufórico, quer vir.
O caso presente ocorreu comigo. Deveras, fui eu a vítima desta subversiva acusação de insanidade.
Estava em meio de um destes momentos tão comuns na vida que nós temos de ouvir a egocentria alheia em toda a sua frustração. Noutras palavras, fazia as vezes de ouvinte a um amigo querido. Como todo mortal, falava ele da única coisa que uma pessoa quer falar, seu diálogo tinha o fundamento universal de todos os diálogos: a dor pessoal. Bom, deixei-me escutar aqueles sofrimentos, toda a sua profundidade que poderia ser capitada simplesmente pelas contorções da boca e das rugas ao redor da face, do friccionar das mãos e o estalar dos dedos. Neste grande momento da solidariedade inexorável um tremendo impulso ao erro me acometeu. Veio-me o tão recriminável, imoral desejo de ser sincero. No breve intervalo que meu amigo faria entre uma de suas frustrações e um de seus tédios, sem controle fui tão sincero quanto pode um homem, mesmo que ele seja honesto e prudente. Tratei de falar sobre a indiferença universal, sobre a necessidade de toda a grande ação trazer um grande sofrimento ativo - de todas aquelas coisas que falam de liberdade e coragem. Neste momento, nada fiz senão receber tapas e ouvir gritos e ofensas deste grande sofredor. Saí de lá sendo chamado de louco e fascínora.
Não faço as vezes de tímido: Admiro os veem a fluida e multicor loucura da realidade

Um comentário:

  1. Uma vontade inexplicável de me encolher em algum canto e ficar escondida, como que para fugir dos outros, como que para tentar fugir de mim.

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