sábado, 31 de julho de 2010

Promenade

Os olhos no mar que curva
O horizonte débil.
A mão na areia fina,
Uma mão de areia -
Minha mão de areia queima;
Este mar arde.
Deixei as mão na areia
Sob o peso da praia -
Não há grão que possa erguer
Ou que não me atraia!
Quero neles tocar a profundeza
Da hora da eternidade.
O marulho é um sussurro doce
Em espirais...
Que vetustos versos recitas,
Ó Deus Pulverizado?


terça-feira, 27 de julho de 2010

Para Aliviar os Fardos


"Se o senhor se ativer à natureza, ao que há de mais simples nela, às pequenas coisas que quase não vemos e que, de maneira imprevista, podem se tornar grandes e incomensuráveis; se o senhor tiver esse amor pelo ínfimo e procurar com toda simplicidade conquistar como um servidor a confiança do que parece pobre - então tudo se tornará mais fácil, pleno e de algum modo reconciliador para o senhor, talvez não no campo do entendimento, que fica para trás, espantadado, mas em sua consciência mais íntima, no campo da vigília e do saber. O senhor é tão jovem, tem diante de si todo começo, e eu gostaria de lhe pedir da melhor maneira que posso, meu caro, para ter paciência em relação a tudo que não está resolvido em seu coração. Peço-lhe que tente ter amor pelas próprias perguntas, como quartos fechados e como livros escritos em uma língua estrangeira. Não investigue agora as respostas que não lhe podem ser dadas, porque não poderia vivê-las. E é disto que se trata, de viver tudo. Viva agora as perguntas. Talvez passe, gradativamente, a viver as respostas. Talvez o senhor traga consigo a possibilidade de construir e formar, como um modo de viver especialmente afortunado e puro; eduque-se para isso. Mas aceite com grande confiança o que vier, e se vier apenas da sua vontade, se for proveniente de qualquer necessidade de seu íntimo, aceite-o e não o odeie. A carne é um fardo, verdade. Mas é difícil a nossa incumbência, quase tudo o que é sério é difícil, e tudo é sério. Se o senhor chegar a reconhecer apenas isso e chegar a conquistar, a partir de si, de sua disposição e de seu modo de ser, de sua experiência e infância e força, uma relação inteiramente própria (não dominada pela convenção e pelo hábito) com a carne, então o senhor não precisa mais ter receio de se perder e de ser indigno de sua melhor posse"

Rainer Maria Rilke

A Lenta Flecha da Beleza

"A mais nobre espécie de beleza é aquela que não arrebata de vez, que não se vale de assaltos tempestuosos e embriagantes (uma beleza assim desperta facilmente o nojo), mas que lentamente se inflitra, que levamos conosco quase sem perceber e deparamos novamente num sonho, e que afinal, após ter longamente ocupado um lugar modesto em nosso coração, se apodera completamente de nós, enchendo-nos os olhos de lágrimas e o coração de ânsias."
Friedrich Nietzsche; Humano, Demasiado Humano

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Hino

Lamenta-te a terra, Divindade Morta!
Tanto pranto, tanto canto na espera -
É a hora das Rapsódias do Silêncio!
Vê! Germinam as Raízes que te abraçam
porém as raízes antigas já são outras...
tempo de nascer da seiva o animal,
pois os leões cantam já a luz d'aurora -
Há cor nascente nos pilares de ar...
Tua vida corusca divindade morta!
Pois a Morte é Catequese da Vida -
e todo teu corpo é tamborilar!


quarta-feira, 30 de junho de 2010

Posso lhe Entregar Mais?

"Nada posso lhe oferecer que não esteja em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo além daquele que há em sua própria alma. Nada posso lhe dar, a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo, e isso é tudo."

Hermann Hesse

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Um Éden Memorável

Os poetas da antiguidade animaram todos os objetos sensíveis com Deuses ou Gênios, nomeando-os e adornando-os com as propriedades dos bosques, lagos, cidades, nações e tudo o que seus dilatados sentidos podiam perceber.
Particularmente, estudaram o gênio de cada cidade e país, colocando-o sob a égide de sua deidade mental.
Até que se formou um sistema, do qual alguns se aproveitaram e escravizaram o vulgo, interpretando e abstraindo as deidades mentais de seus respectivos objetos. Então surgiu o clero.
Elegendo formas de culto dos mitos poéticos.
E proclamando, por fim, que assim haviam ordenado os Deuses.
Os homens então esqueceram que Todas as deidades residem em seus corações.
William Blake

sábado, 15 de maio de 2010

Uma máxima (leia-se: uma manifestação de vaidade)

Liberdade: a ignorância que temos da distância até os muros de nossa vida.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Algumas coisas não foram feitas para serem nominadas

Há algo senão cisão?
cisão - a seiva da vida.
Meus olhos não lembram mais
Mundos que me sussurraram

Este rio de nove fozes,
suas tantas águas negras
rondam a ilha do instante.
a gota do negror férreo
é o grotão da pupila

ó Alma - Nau já sem leme,
singra o rio impassível
cantando só deste fado
dos teus marujos - Os Mortos!

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Quem Faz as Perguntas?


- Por que choras?
- não sei porque choro, somente sei que choro.
- Não seria saudade de um tempo ou de um lugar?
- A minha condição me impede a lembrança
- Não tens sequer família ou pátria?
- Não ter e não lembrar... Que diferença faz? Sinceramente estes conceitos me são uma lembrança vaga. De todo modo, não posso deixar de senti-los como uma mera futilidade
- Achas então que sou fútil?
- Sinceramente, senhor, não sei do que está falando. não me lembro das ofensas que fiz um dia e nem daqueas das quais fui alvo um dia.
- Não choras pois por qualquer ofensa?
- Não sei porque choro, somente sei que choro
- não tens sequer a mínima idéia da causa de teu choro?
- Claro que não! quando este momento começou já estava eu aqui sentado e chorando, você perguntava o motivo do meu choro...
- Quem é você, tolo que chora?
- Agora para voce sou um tolo que chora. Isto lhe é suficiente?
- De fato, devo tomá-lo por um louco. quero ainda assim saber quem é você.
- Bem, agora sou um louco. Se me disser que sou o vento, deveras evanescerei
-Sua resposta não faz qualquer sentido. talvez para entendê-lo tenha de responder e não perguntar. Pergunte-me algo.
- De fato, toda a pergunta que me fez foi uma resposta que continha em si a forma de uma pergunta
- Não importa. quero que me faças uma pergunta.
- Quão breve é o agora?
- não sei o que quer dizer
- Senhor, não tenho idéia do que está falando

sexta-feira, 30 de abril de 2010

O NAVEGANTE DO DESERTO - Parte I: A Bússola de Mil Nortes


Quem destes desertos
onde a raça de cain vaga e passa fome
os limites conhece?
quem já chegou aos limites de um deserto devorador,
devorador do horizonte;
insaciado do infinito,
que devora, sorvendo
a brisa da praia de ondas argênteas?
eis aqui pergunta para quem
pelo deserto flana; mesmo pode ser
para quem o deserto conhece. a resposta vem da boca
de poucos- muitos aqui se entende por ninguém.

De todo modo, , antes da hora do retorno ao pó que

há de me igualar à areia cálida e áspera, nada farei

salvo caminhar deserto a fora, ou ao sentido

incognoscível que existe em minhas pernas.

tudo o que resta é caminhar - estas caminhadas

de suor e sangue, sangue, sede e fome - tudo o que resta é caminhar

avançar pela areia até a Queda que meus passos,

meus passos vibrantes e frementes sem temor

ou timidez só fazem imitar

tudo o que resta é caminhar

Um canto cálido de tristeza

ecoou das rochas distantes

a bloquear o horizonte:

"a velha cigana

é hoje frio pó

seu fatal baralho

assola o deserto"

O rio gélido

que meu corpo pintou

fez-me entender: 'eu tinha medo?'

Na noite cálida do deserto, o vento arenoso
afeito às previsões, fez pousar à minha mão
uma carta em granito e eletro talhada.
Nas linhas metálicas, o desenho:
uma caveira tranqüila e lânguida num catre
"O Opiário", epígrafe da horrenda imagem -
naquelas letras vi algo bom.
Pude sonhar com o ópio.
No sonho do ópio sonhei que sonhava
sonhos sonhando imensidades
e dimensões de pureza.
O devaneio foi meu Fogo de Santelmo -
chama destes mastros desfraldados
que buscam as cascatas
onde cai a noite. O Sonho
é mais um salto que um vôo,
salto para os meus olhos que não conheço

No cume de uma duna
que julguei ser o Strombolli do deserto
contemplei a dimensão do Mal:
O deserto em ciclópicas explosões
gritava nos seus dantescos grotões -
sua fome é a fome
do infinito pelo Infinito -
o absoluto quer o Absoluto,
pois o reflexo quer
a indiferente forma que lhe toca.
O deserto em insaciável fome
morde os pilares do céu que,
azúlea grandeza, esmaga-lhe.
Os gritos da Morte e do Vazio
estão já mais lacerantes.
Os ecos vibram elétricos
nas cordas de sangue
desta carne eremita.
Uma estrela brilhava numa duna
sugeria o horizonte em cristais -
Ó Mentilevados!





sábado, 10 de abril de 2010

Um Haikai




Esta rua vazia -


contornos de sombra dançam -


o silêncio grita

domingo, 28 de março de 2010

A Loucura

Há reinos curiosos que os homens ignoram tanto quanto temem. Apavoram-se com sua lógica cheia de arabescos, barrocas contorções, retóricas cheias de emoção e histeria. Quão estranho é este medo humano da loucura, quão razoável este pavor às idéias dos insanos. Esta verdade só me confirma a verdade de que o horror é posterior ao conhecimento - nada impedindo que depois do conhecimento ele perdure. De fato, não faço aqui nenhuma conclusão digna dos anais da psicanálise, seus arquétipos e patologias. O escuro na infância, a sensação de desproteção que as trevas provocam em seu mundo de formas vacilantes e contornos dúbios nos fazem a melhor das provas. Enfim, é curioso o medo que o vulgo tem da loucura, da loucura e sua tragédia e sua comédia.
Duvido haver alguém conhecido menos que dois loucos. A memória humana parece uma pinacoteca da insânia alheia. Dada aquela contemplação surpresa lembramo-nos daqueles causos tão absurdos. Eu, por exemplo, talvez por substrato geral do destino de todos os escritores, posso citar pelo menos quatro casos de loucura.
Caminhando por algum destes charmosos bairros cariocas, onde o sol e a moda reluzem em toda a sua grandeza sobre todos os corpos com alegria, vi um caso peculiar de um homem, um desses famintos que infectam o mundo, passantes cheios de pestilência a violentar o belo nas suas mais elevadas aras. Muito bem, este pateta se esgoelava em prantos e arranhões, invocando a todos os elegantes transeuntes, implorando o dinheiro. Com a naturalidade que existe no comportamento do brasileiro, nossos compatriotas fizeram as vezes de surdos. Ora, não é este homem um insano? na fome angustiante ele pede o dinheiro, porém não pede comida? Podemos tratar por duas conclusões que só nominalmente podemos chamar de lógicas: gostaria este falido de escolher o que comeria, seu devido acompanhamento, o que beberia junto, o que o faz um louco por não ver sua própria condição e o desespero de sua necessidade. Aqui podemos ver a loucura da nesga dessa dignidade boçal. Noutra perspectiva a fome de nosso miserável pensava comer o dinheiro para matar a fome. Aqui caso sem muito valor - ambos somos amantes da novidade, este ópio do cérebro - sem muito valor por tratar-se da hipótese de uma loucura tradicional, sem importância.
Outro caso de loucura é desses que um homem sempre se lembra. Sim, envolvia uma mulher. Melhor, era uma menina ainda, no auge da beleza de sua juventude. Em espírito principalmente, por fazer tudo aquilo que fazia com ares de brincadeira. Entretida e compenetrada qual a criança com seu brinquedo. Detestava, disso lembro-me bem, de tudo que não podia tomar por brincadeira. Seu grande jogo era o corpo, adorava estes jogos lúdicos e sadios dos homens e das mulheres, sem qualquer preferência por uma modalidade do jogo, sem queixas quanto ao outro jogador, ou mesmo aos outros jogadores. Cada jogo, gracejo, esporte eram fonte de um frenesi mais potente em sua beleza sórdida que todo o frenesi da vida íntima. Como toda criança, era egoísta e se entediava fácil. Não do jogo! Jamais do jogo! entediava-se dos jogadores. Qual a menina que quer mais bonecas pois as outras já estão antigas, qual o animal faminto, ela dispensava os parceiros após uma, duas, três rodadas, já enfastiada. Ria ao lembrar do choro dos amantes e das amantes enquanto estes declaravam seu amor premeditado a esta Divindade-Bacantes. Não vou dizer que há aqui uma loucura do amor. Por comodidade, darei aqui a alcunha de loucura báquica.
Agora tomo consciência. Não são quatro casos de loucura, são três. Melhor, não há certeza se existem quatro casos de loucura que lembro em minha vida. vamos colocar aqui como número certo o três. Dois já passados, um outro ainda, eufórico, quer vir.
O caso presente ocorreu comigo. Deveras, fui eu a vítima desta subversiva acusação de insanidade.
Estava em meio de um destes momentos tão comuns na vida que nós temos de ouvir a egocentria alheia em toda a sua frustração. Noutras palavras, fazia as vezes de ouvinte a um amigo querido. Como todo mortal, falava ele da única coisa que uma pessoa quer falar, seu diálogo tinha o fundamento universal de todos os diálogos: a dor pessoal. Bom, deixei-me escutar aqueles sofrimentos, toda a sua profundidade que poderia ser capitada simplesmente pelas contorções da boca e das rugas ao redor da face, do friccionar das mãos e o estalar dos dedos. Neste grande momento da solidariedade inexorável um tremendo impulso ao erro me acometeu. Veio-me o tão recriminável, imoral desejo de ser sincero. No breve intervalo que meu amigo faria entre uma de suas frustrações e um de seus tédios, sem controle fui tão sincero quanto pode um homem, mesmo que ele seja honesto e prudente. Tratei de falar sobre a indiferença universal, sobre a necessidade de toda a grande ação trazer um grande sofrimento ativo - de todas aquelas coisas que falam de liberdade e coragem. Neste momento, nada fiz senão receber tapas e ouvir gritos e ofensas deste grande sofredor. Saí de lá sendo chamado de louco e fascínora.
Não faço as vezes de tímido: Admiro os veem a fluida e multicor loucura da realidade

quinta-feira, 25 de março de 2010

Correspondências - Charles Baudelaire

A Natureza é um templo onde vivos pilares
Deixam filtrar não raro insólitos enredos;
o homem o cruza em meio a um bosque de segredos
Que ali o espreitam com seus olhos familiares.

Como ecos longos que à distância se matizam
numa vertiginosa e lúgubre unidade,
tão vasta quanto a noite e quanto a claridade,
Os sons, as cores e os perfumes se harmonizam.

Há aromas frescos como a carne dos infantes,
Doces como o Oboé, verdes como a campina,
e outros, já dissolutos, ricos e triunfantes,

Com a fluidez daquilo que jamais termina,
como o almíscar, o incenso e as resinas do Oriente
que a glória exaltam dos sentidos e da mente.

terça-feira, 23 de março de 2010

História da Noite - Jorge Luís Borges

Ao longo de diversas gerações
os homens erigiram a noite.
Em seu começo era cegueira e sonho
e espinho que lacera o pé desnudo
e o temor dos lobos.
Nunca saberemos quem forjou a palavra
para o intervalo da Sombra
que cinde os dois crepúsculos;
nunca saberemos em que século foi cifra
do espaço de estrelas.
Outros engendram o mito.
Transformaram-na em mãe das parcas tranqüilas
que tecem o destino
e lhe sacrificam ovelhas negras
e o galo pressagia seu fim.
Doze casas lhe deram os caldeus;
infinitos mundos, o Pórtico.
Hexâmetros latinos a modelaram
e o Terror de Pascal.
Luís de León nela encontrou a pátria
de sua alma estremecida.
Agora a sentimos inesgotável
como um antigo vinho
e ninguém pode contemplá-la sem vertigem
e o tempo a impregnou de eternidade.

E pensar que não existiria
sem esses tênues instrumentos, os olhos.

domingo, 21 de março de 2010

O Mestre de Lovecraft


Talvez Lovecraft não seja o grande mestre do terror na literatura. Esta alcunha ainda deve ser - e por muito tempo será - atribuída a Poe. Entretanto, Lovracraft é o autor que melhor entendia a sua importância e seu alcance estético. Disto não há dúvidas. É importante colocar ambos os nomes no texto. Inconteste a influência de Poe na criação da obra lovecraftiana, quer na prosa quer na lírica. Dentre todos os escritores da literatura do terrível, Poe foi aquele que recebeu os mais altos louvores de Lovecraft, sendo digno inclusive de um capítulo inteiro a si devotado no Supernatural Horror in Literature. Os biógrafos já traçaram o primeiro contato de H.P. Lovecraft com o poeta de Baltimore logo à infância, começando aí o hábito da repetitiva leitura da obra de poe até a sua morte em 1937. Não parece nada absurdo então afirmar que Poe era o verdadeiro mestre de Lovecraft em toda a sua prosa. Jorge Luís Borges chegou a dizer que lovecraft era a "Paródia involuntária de Edgar Allan Poe". Sinceramente, duvido muito de tal premissa. Eu discordo plenamente dela, para sr mais preciso.
Claro que aqui tratamos de um paralelismo dos estilos. As estruturas do estilo lovecraftiana e a do estilo de Poe são ambas marcadas pelos mesmo signos significantes? uma leitura atenta de ambos mostra nitidamente que não. Ambos são escritores de tema obsessivo, disto não há dúvida alguma. São suas obsessões que proporcionam o melhor holofote sobre o mundo de fatalidades, mistérios e desgraças de ambos. Em Poe é muito perceptível a influência da vida pessoal na produção de seus contos - na proporção que o tema da amante morta recorre em seus contos e poemas quase à exaustão são conhecidos os eventos na vida do escritor onde a amada morta se faz presente - fazendo, retroativamente, um caminho desde a morte de Virgínia Clemm sua prima-esposa, de um ou outro pequeno amor de infância, até, numa ótica edipiana, a morte de sua mãe adotiva assim como a da sua mãe biológica. No caso, dedução da presença da Morte e toda a sua potência o longo da vida de poe e da sua prosa. Os assassinatos e as doenças das amantes são aqui expressaõ de um grande tormento de Edgar Allan Poe - a proximidade da morte, algo latente numa vida marcada por mortes desde a primeira infância. A loucura aqui é um tema que pode ser definido até como mediato, ele é o meio pelo qual os assassinatos realizados pelos personagens excitáveis de poe ganham o devido trejeito de absurdo, equivalente ao efeito trágico das doenças fulminantes que acometem tantas vezes os amores de alguns de seus melhores personagens. Claro, o assassino da rue Morgue é simplesmente um macaco, mas nada disso foge à lógica dos seus assassinos psicóticos posto que tanto as mortes grotescas que um orangotango pode realizar quanto as realizadas pelo mais neurótico louco seguem uma lógica unicamente sua - ora, em ambos os casos a morte apresenta em si um profundo senso de fatalidade, ou melhor, de absurdo. Grosso modo, acho plausível afirmar que muito do terror em poe é em si um trabalho de expressão subjetiva, conquanto se nutre do manancial da vida íntima do autor.
Claro, defensor tão ferrenho da lógica e debatedor das filosofias de seu tempo, também podemos avaliar outros de seus contos por uma perspectiva absolutamente diferente. Há em Ligeia, The Case of Mister Waldemar e The Fall of the House of Usher uma prova de uma profunda influência das correntes filosóficas idealistas. Ligia somente reaparece porque sua vontade é forte o suficente para não se ajoelhar à morte. O cadáver de Waldemar só permanece isento de qualquer traço de putrefação durante três meses e ainda emitindo pequenas falas porque a mente está hipnotizada; ou seja, a consciência permanece ainda ligada ao mundo material por conta dos métodos hipnóticos. O corpo permanece unicamente porque o Sujeito Waldemar, ainda reage ao mundo por conta das perguntas realizadas a si - Poe coloca, dentro de uma atmosfera de bizarria, duas situações então: ou que o corpo tem sua existência dependente a concomitância da existência do sujeito do conhecer ou que a existência corpórea é a posteriori à existência de um sujeito do conhecer correspondente; de todo modo, afirmações em essência idealistas. A Casa de Usher somente desaba quando da morte dos dois irmãos pelo situação de a cada ter a mesma essência que ambos os irmãos, calculadamente gêmeos - válido acrescentar aqui a observação, creio que de Cortázar, de o próprio sobrenome Usher, que é também a alcunha da casa, ser mais um dos códigos deste amante da criptografia; Usher pode ser decomposto nos pronomes Us, She, and He, o que daria plenamente a idéia de totalidade e simbiose entre todos os membros da casa de Usher. Estas manifestações estéticas de filosofia, entretanto, não desproveem a obra de Poe, este escritor que foi o mais exaltado defensor da sensação literária, de seu caráter eminentemente subjetivo. Não falo aqui dos seus contos satíricos ou de sua ficção científica, pois em nada acrescentariam à comparação entre Lovecraft e Edgar Allan Poe.
Agora, em Lovecraft os matizes da tela mudam. Daquele mundo de Poe, onde as amadas são pintadas com os mais cândidos tons pastéis e a morte é pintada com os fúlgidos tons de vermelho da insânia e da fatalidade, passamos para uma tela estranha que nos faz questionar a presença de tintas ali, nos dá a sensação de um plus ultra pavoroso, onipresente. O argumento de que Lovecraft é uma paródia involuntária de Poe começa a cair por terra por aí. a esfera de ação do terror de ambos é totalmente distinta. Enquanto o terrível que os personagens do último vislumbram é eminentemente um terror doméstico, confinado a casa, é um horror profundamente das fragilidades psíquicas das personagens e de suas impressões sobre aquilo que se lhes mostra e se lhes sugere. H.P Lovecraft tem uma abordagem nitidamente universalista, o alcance de seu terror vai para além da vida das personagens, ele é destinado a afetar o leitor também. As dimensões dos espaços lovecraftianos, as dimensões em que a trama se faz são uma boa prova disso: A presença de seitas macabras que existem ao redor do mundo adorando divindades odiosas, criaturas que podem deslocar suas mentes no espaço-tempo, ameaças vindas de outras dimensões e infinitamente mais poderosas que a humanidade.
Os signos significantes em Lovecraft são mais nítidos. Eles se encontram, inclusive, dentro de um todo razoavelmente coeso, em si uma mitologia própria. Cthulu, Yog-Sothoth, Azathoth, os Grandes Antigos, dentre tantas outras aberrações de sua criação representam antes de tudo a relação do homem com o mundo. Dadas as suas dimensões titânicas, suas cidades ciclópicas, suas tecnólogias além da nossa compreensão, sua vida mais longa que eras e eras da terra, eles representam a impressão lovecraftiana da relação homem-mundo: o homem é insignificante no universo, que apresenta uma lógica complexa muito além da capacidade da lógica humana - não são poucas vezes que as monstruosidades de Lovecraft são postas como impossíveis de serem descritas dentro do conceito simples das três dimensões. Podemos ainda ampliar a afirmação. A lógica do universo deve ser incognoscível para o homem, que, quando da sua percepção, entende a indiferença cósmica ante o humano; o contato com esses monstros-deuses revela a amoralidade do universo, onde todas as forças agem de acordo com uma vontade própria que desprove o universo e, consequentemente, a vida, de qualquer possibilidade de sentido. Lovecraft tem a capacidade quase sardônica de tão sádica de colocar suas personagens dentro de uma engrenagem terrível na qual eles são totalmente impotentes em evitar que ao final serão obrigados a perfurar todos os véus da percepção para se depararem com uma realidade opressiva e destruidora. Diz-se que todos que lêem o Necronomicon de Abdul Alhazred devem enlouquecer ou morrer assim que lêem as suas diabólicas páginas. Não há em cada uma das narrativas de Lovecraft, em seu período de plena maturidade artística, menos de uma personagem que não sofra com as conseqüências de seu desejo por conhecer esta coisa-em-si tantálica: enlouquecem, se suicidam em razão do horror de existir com o conhecimento da verdade, vivem eternamente atormentados por demoníacas imagens. A prosa de lovecraft faz, logo, o reverso da gnosis. Se pudermos dar-lhe um mote seria: Descubro, logo sofro.
Ora, entedemos já uma diferença capital entre Poe e Lovecraft. O primeiro tem o fundamento de sua estética profundamente enraizado na vida pessoal. A Morte Rubra, Ligeia, Morella, O Corvo, traçam nítidos paralelos com a vida de Poe. Sua arte é, portanto, uma expressão fantástica, um travestir de suas angústias e horror particulares. O segundo por sua vez, segue por um caminho totalmente distinto, não segue a via da expressão dos sofrimentos particulares, não; ele toma, sim, o caminho da expressão de um conjunto de proposições filosóficas em prosa. A estética lovecraftiana é, eminentemente, estética onde seus objetos significantes remetem automaticamente a uma realidade terrível, enlouquecedora e estranha. Poe é um escritor do terror sentimental, Lovecraft do terror filosófico. Os fundamentos de ambos são totalmente distintos. Poe é referência para a expressão lovecraftiana, mas não pode ser seu fundamento.
Sendo assim, provoco agora um vazio. Se Lovecraft não é a paródia involuntária de Poe, como afirmou o mestre argentino, quem é o mentor, a fonte da sustentação da estética de lovecraft? um olha atento diz que não há mentor, e sim mentores para a estética lovecraftiana. O fundamento vem destes dois filósofos que fizeram a literatura fazer translações ao redor de suas idéias: Nietzsche e Schopenhauer.
De Nietzsche, podemos com toda a certeza extrair o conceito do apolínico e do dionisíaco. Enquanto há em lovecraft um mundo de profunda beleza, qual as auroras boreais que fazem formas de castelos diáfanos como descreve nas suas fantásticas montanhas de loucura, este mundo de aparência e lógica, vê-se também o fundamento, uma lógica gradativamente mais profunda, até o ponto que se torna inapreensível. A personagem lovecraftiana se aproxima em muito da interpretação nietzscheana de Prometeu, o seu transgedir da ordem, o seu querer descobrir uma ordem de ação que não é da competência da humanidade inignificante o destina aos mais profundos sofrimentos - Danforth enlouquece por olhar para trás nos momentos de sua fulga de uma aberração amorfa em uma cordilheira antártica. Lovecraft ergue a bandeira da incapacidade de se alcançar a verdade e suportá-la. Sua prosa busca, embora imperfeitamente, a colocação daquela aceitação da brutalidade da existência como na interpretação nietzscheana da tragédia de Sófocles. Talvez aqui se ache o mais importante fundamento de Nietzsche a estética cosmicista de lovecraft.
Enganar-nos-íamos se disséssemos que é a única influência de Nietzsche no Cthullu Mythos. Ora, as próprias divindades lovecraftianas são uma adaptação muito literal do conceito de Übermensch. São elas uma manifestação distorcida, uma estátua desmembrada, do sobre-homem nietzscheano. Se Cthullu consegue movimentar vontades humanas de acordo com seus desígneos, se a Raça de Yidth se desloca pela humanidade para em todas épocas acumular conhecimento, fazem isso com um profundo senso de interesse pessoal, disseminam seus valores sobre a manada da humanidade. Há aqui um sobre-homem mal entendido, porém que reforça o aspecto de brutalidade e indiferença e amoralismo do universo.
A novela e o conto lovecraftianos podem ser entendidos como uma adaptação de uma série de conceitos schopenhauerianos. As personagens de Lovecraft concomitante ao encontro com as grandes forças cósmicas se encontram diante da realidade de um sofrimento universal da humanidade. De fato, os destinos delas podem ser entendidos como schopenhauerianos: Se algumas personagens de Lovecraft cometem suicídio é por viver num eterno querer voltar ao momento irrecuperável da conformação com a ordem aparente da condição humana; se alguns enlouquecem é porque o encontro com esse cosmos aberrante não somente destrói as suas vontades de vida, ele danifica a sua capacidade ser um sujeito do conhecer - vide o fato de srem simplesmente o meio de transmissão para o narrador racional sobre o horror do mundo, são a garantia de que por trás do mundo há uma realidade abominável.
Além disso, há uma adaptação do conceito de Schopenhauer sobre a tragédia. Os personagens de lovecraft são postos dento de uma seqüencia causal inexorável. Não há nada neste mundo sem luzes e sem calor que necessariamente não tenha de acontecer. Tudo é causa-efeito, tudo é inexorável, tudo é destino. De fato, são brinquedos do destino, tanto quanto são marionetes de Lovecraft na sua obsessiva afirmação do horror da existência, do terror da verdade. Ao final, a verdade é um quietivo, é o assassinato da racionalidade do mundo, da vontade humana e da significância da vida. Nada menos Nietzscheano, assim como não muito conforme Schopenhauer.
A relação de Lovecraft e Poe não é a relação entre o discípulo e o mestre, reciprocamente. Sem dúvida Lovecraft era um profundo admirador de Poe. A importância de Poe no caso, seria a de proporcionar um interesse fundamental a Lovecraft, gerar em si a vontade de ser um escritor de terror. Poe e Lovecraft não são porém muito distantes entre si. Poe prova que não existe situação subjetiva que não possa ser posta dentro de uma objetividade estética. Lovecraft, por sua vez, expressa que não há proposição filosófica, mesmo que distorcida, que não possa ser traduzida em uma sucessão de objetos estéticos. Ambos provam a capacidade dos artistas em produzir signos com variados e profundos significados.

sexta-feira, 19 de março de 2010

A Dançarina Burlesca

A noite caiu. A meia noite obêmia se deita sobre o mundo - preguiçoso gato preto. É a hora de buscar os licores fortes que me fazem esquecer o nada que me serve o dia em fartas goladas que um monstro me faz tomar. É a hora de dar os banhos que a alma merece, nos líquidos negros que lhe apetece.
Numa esquina destas tantas - destas tantas que gritam a galharda decadência da cidade - entrei num desses recintos que o dia e a luz - a luz é a morte do prazer - um desses lugares cuja luz matutina quase esconde. Ficam eles ali, no ar vibrante do calor diurno, miragens... ilusões de oásis ao longo do dia.
Não esperava jamais que na noite sórdida encontrar, em toda a cidade infame, deparar-me com jóia que lhe fosse mais digna. Anel perfeito para as mãos dessa princesa maculada.
Tudo no ambiente era langor - a luz vagarosa em tons fascinantes quase se espalhando no ambiente, paralisada na sua lassidão; a fumaça dos cigarro fazendo uma dança dos sete véus pelos ares, o aroma, um perfume da crueldade; o licor explodindo estrelas garganta adentro. Um desses lugares onde o homem se lembra do Homem, erguendo, com garbo, a face altiva ante as leis.
Tudo no ambiente era elevação - a música baixa; uma bateria bem marcada, sem pressa, o baixo parecia dar o compasso das contrações de minha carne, uma guitarra dava à nota trejeito de bombardeio aos instintos e ao senso. Os risos incríveis, lascivos, leves, em si hilariantes trariam júbilo aos sabujos da felicidade. O licor infundindo galáxias na mente. Um desses lugares onde o homem pode ser feliz, onde pode fazer da sua felicidade uma rapier contra o mundo, roubar as armas da mão inimigo.
Jamais o dia destilará sentimentos mais pungentes que a noite e suas jóias! Dentro, o prazer do Cointreau e do Cohiba. Fazia eu nada mais que observar a morte de meu relógio - odeio esse Dieu sinistre, effrayant, impassible. Um brinde à morte do relógio! Que os metais dos ponteiros derretam para nos dar prazer! Não possam jamais estes metais fundentes novamente formar essas hórridas adagas. De fato, senti-me tão confortável que me dei a este prazer - prazer que só libertos podem degustar em todo o seu gosto e sua cor - dei-me a este prazer de tirar meus pés dos sapatos e das meias e sentir o carinhoso toque gelado do chão.
A atenção a esses pequenos prazeres fez-me desatento diante do enorme palco do qual poucos metros me distanciavam. Não necessitava ele de qualquer pano, uma despretensiosa escuridão lhe amalgamava segredos e mistérios
Foi nele que ela apareceu.
A fronte altiva - queixo ao céu indicando sua ascendência, os olhos do negror que permite um panorama do abismo e do mistério. O espartilho negro formando uma pele sobre o torso bem formado - com leveza marcava a cintura fina, mais bela que as das ampulhetas, suas inimigas. A pele braca como se uma escultura pudesse ser talhada do leite.
Mais que tudo seu semblante trazia a idéia de distância. Tudo em seus traços era algo sidéreo, distâncias incomensuráveis - a infinita distância que se faz presente nalgumas mágicas proximidades. jamais me esquecerei do primeiro movimento níveo que aquelas pernas nuas fizeram. Aquelas alvas coxas nuas com ligeiros rubores... sensual aquarela.
O passo lento, firme, com uma cadência cheia de entediada alegria. Com os passos dizia "Venerai-me!". Na boca do vermelho carnal um sorriso se esboça - a lascívia da superioridade. O sorriso dizia "estou acima!". O cabelo, do negror do piche, do negror destas noites tropicais, dava-lhe o ar sagrado de um Dervixe. A multidão dos bêbados, a horda dos falidos, no torpor dos venenos, no zênite do intumescido fervor lhe provia das mais festivas litanias, àquela burlesca divindade.
Dançava numa dança de alegria, numa dança de desprezo, num compasso de isolamento, de edênico prazer - de isolamento do edênico prazer. os leques em movimentos velozes - o bote de uma naja é veloz. Os leques em movimentos dignos da mais airosa das serpentes, movimentos ágeis que escondiam o corpo a se desnudar. Revezavam-se provocantes; ora às costas, ora ao colo que prometia babilônias inteiras. cada movimento dos leques somente fazia agitar o místico oceano das catarses presente na alma de todos os insanos.
O mais cruel na sua distância era sua proximidade. Era aquela distância alimentada pela cegueira indiferente. O que produz esse prazer tão distinto e tão intenso que é ser uma melancólica lacuna no meio do espaço? tudo naquela distância infinita era de uma proximidade carnal. Ela, a dançarina, estava mais próxima que o licor amalgamado às minhas nevroses e minhas veias. estava mais próxima que o fumo a esquentar minha boca. Mais próxima que a Morte e o Tempo - feras presas no cárcere de minhas células.
O que há de mais cruel senão aquele perfume? Um perfume duma ligeira doçura, um perfume rasgando o senso e os sentidos qual os dentes elétricos de uma pantera. Um perfume que era mensageiro de todas as promessas. Nada me forma mais a sua imagem que seu perfume. Um aroma qual a correnteza ou a maré bravia - levava-me; destruía todas as minhas falésias.
Quiçá minhas nevroses, todas estas brônzeas neurastenias que tecem a seda de minha mente, quiçá há em mim uma fome mais lacerante que a fome de outros miseráveis... não importa. Algo fez minha rendição àquelas mortais correntezas. Num passo tonto e inseguro; um passo trêmulo qual as cordas de um violão partido. Num passo trêmulo de fervor - ó decadente fanatismo! - com passo inseguro de veneração, num passo sedento dos infinitos espaços. Numa agitação elétrica de ansiedade - O Insaciável é um leviatã faminto - eu fui na nababesca direção daquela dançarina burlesca.
Patético, qual todo fiel, caminhando. Os olhos opacos tamanho o fervor, tamanho o torpor. tropeço em um degrau que o licor e o torpor fizeram invisível. De joelhos prossigo. Por que minha alegria me lacera? De todo modo, sigo caminhando - patético anacoreta.
"Decadente divindade" digo à Ela "Dá-me permissão, a mim cuja alma é irmã do meretrício, da loucura e do jogo, dá-me a permissão não de um beijo, ou do flamiforte, flamívoro sexo que tuas artes ofertam aos eleitos - o tempo dos eleitos para tuas artes místicas se foi em séculos de carne mortificada. Não! Musa das ruas escusas, das vielas sórdidas, das ruelas onde os poetas fazem morada, um abraço destes braços, deste corpo, da matéria do amor e do espaço!"
Não posso garantir se de sua face marmórea obtive uma resposta - talvez misericórdia talvez castigo. Só garanto ter despertado com o Sol - este flamante cancro pustulento no céu - a surgir por sobre os prédios e os empregos. Só posso garantir o maxilar fraturado, o gosto do sangue explodindo infernos garganta abaixo
Desde aquele despertar, para mim, a noite se tornou um reflexo escuro do dia