terça-feira, 23 de março de 2010

História da Noite - Jorge Luís Borges

Ao longo de diversas gerações
os homens erigiram a noite.
Em seu começo era cegueira e sonho
e espinho que lacera o pé desnudo
e o temor dos lobos.
Nunca saberemos quem forjou a palavra
para o intervalo da Sombra
que cinde os dois crepúsculos;
nunca saberemos em que século foi cifra
do espaço de estrelas.
Outros engendram o mito.
Transformaram-na em mãe das parcas tranqüilas
que tecem o destino
e lhe sacrificam ovelhas negras
e o galo pressagia seu fim.
Doze casas lhe deram os caldeus;
infinitos mundos, o Pórtico.
Hexâmetros latinos a modelaram
e o Terror de Pascal.
Luís de León nela encontrou a pátria
de sua alma estremecida.
Agora a sentimos inesgotável
como um antigo vinho
e ninguém pode contemplá-la sem vertigem
e o tempo a impregnou de eternidade.

E pensar que não existiria
sem esses tênues instrumentos, os olhos.

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