domingo, 21 de março de 2010

O Mestre de Lovecraft


Talvez Lovecraft não seja o grande mestre do terror na literatura. Esta alcunha ainda deve ser - e por muito tempo será - atribuída a Poe. Entretanto, Lovracraft é o autor que melhor entendia a sua importância e seu alcance estético. Disto não há dúvidas. É importante colocar ambos os nomes no texto. Inconteste a influência de Poe na criação da obra lovecraftiana, quer na prosa quer na lírica. Dentre todos os escritores da literatura do terrível, Poe foi aquele que recebeu os mais altos louvores de Lovecraft, sendo digno inclusive de um capítulo inteiro a si devotado no Supernatural Horror in Literature. Os biógrafos já traçaram o primeiro contato de H.P. Lovecraft com o poeta de Baltimore logo à infância, começando aí o hábito da repetitiva leitura da obra de poe até a sua morte em 1937. Não parece nada absurdo então afirmar que Poe era o verdadeiro mestre de Lovecraft em toda a sua prosa. Jorge Luís Borges chegou a dizer que lovecraft era a "Paródia involuntária de Edgar Allan Poe". Sinceramente, duvido muito de tal premissa. Eu discordo plenamente dela, para sr mais preciso.
Claro que aqui tratamos de um paralelismo dos estilos. As estruturas do estilo lovecraftiana e a do estilo de Poe são ambas marcadas pelos mesmo signos significantes? uma leitura atenta de ambos mostra nitidamente que não. Ambos são escritores de tema obsessivo, disto não há dúvida alguma. São suas obsessões que proporcionam o melhor holofote sobre o mundo de fatalidades, mistérios e desgraças de ambos. Em Poe é muito perceptível a influência da vida pessoal na produção de seus contos - na proporção que o tema da amante morta recorre em seus contos e poemas quase à exaustão são conhecidos os eventos na vida do escritor onde a amada morta se faz presente - fazendo, retroativamente, um caminho desde a morte de Virgínia Clemm sua prima-esposa, de um ou outro pequeno amor de infância, até, numa ótica edipiana, a morte de sua mãe adotiva assim como a da sua mãe biológica. No caso, dedução da presença da Morte e toda a sua potência o longo da vida de poe e da sua prosa. Os assassinatos e as doenças das amantes são aqui expressaõ de um grande tormento de Edgar Allan Poe - a proximidade da morte, algo latente numa vida marcada por mortes desde a primeira infância. A loucura aqui é um tema que pode ser definido até como mediato, ele é o meio pelo qual os assassinatos realizados pelos personagens excitáveis de poe ganham o devido trejeito de absurdo, equivalente ao efeito trágico das doenças fulminantes que acometem tantas vezes os amores de alguns de seus melhores personagens. Claro, o assassino da rue Morgue é simplesmente um macaco, mas nada disso foge à lógica dos seus assassinos psicóticos posto que tanto as mortes grotescas que um orangotango pode realizar quanto as realizadas pelo mais neurótico louco seguem uma lógica unicamente sua - ora, em ambos os casos a morte apresenta em si um profundo senso de fatalidade, ou melhor, de absurdo. Grosso modo, acho plausível afirmar que muito do terror em poe é em si um trabalho de expressão subjetiva, conquanto se nutre do manancial da vida íntima do autor.
Claro, defensor tão ferrenho da lógica e debatedor das filosofias de seu tempo, também podemos avaliar outros de seus contos por uma perspectiva absolutamente diferente. Há em Ligeia, The Case of Mister Waldemar e The Fall of the House of Usher uma prova de uma profunda influência das correntes filosóficas idealistas. Ligia somente reaparece porque sua vontade é forte o suficente para não se ajoelhar à morte. O cadáver de Waldemar só permanece isento de qualquer traço de putrefação durante três meses e ainda emitindo pequenas falas porque a mente está hipnotizada; ou seja, a consciência permanece ainda ligada ao mundo material por conta dos métodos hipnóticos. O corpo permanece unicamente porque o Sujeito Waldemar, ainda reage ao mundo por conta das perguntas realizadas a si - Poe coloca, dentro de uma atmosfera de bizarria, duas situações então: ou que o corpo tem sua existência dependente a concomitância da existência do sujeito do conhecer ou que a existência corpórea é a posteriori à existência de um sujeito do conhecer correspondente; de todo modo, afirmações em essência idealistas. A Casa de Usher somente desaba quando da morte dos dois irmãos pelo situação de a cada ter a mesma essência que ambos os irmãos, calculadamente gêmeos - válido acrescentar aqui a observação, creio que de Cortázar, de o próprio sobrenome Usher, que é também a alcunha da casa, ser mais um dos códigos deste amante da criptografia; Usher pode ser decomposto nos pronomes Us, She, and He, o que daria plenamente a idéia de totalidade e simbiose entre todos os membros da casa de Usher. Estas manifestações estéticas de filosofia, entretanto, não desproveem a obra de Poe, este escritor que foi o mais exaltado defensor da sensação literária, de seu caráter eminentemente subjetivo. Não falo aqui dos seus contos satíricos ou de sua ficção científica, pois em nada acrescentariam à comparação entre Lovecraft e Edgar Allan Poe.
Agora, em Lovecraft os matizes da tela mudam. Daquele mundo de Poe, onde as amadas são pintadas com os mais cândidos tons pastéis e a morte é pintada com os fúlgidos tons de vermelho da insânia e da fatalidade, passamos para uma tela estranha que nos faz questionar a presença de tintas ali, nos dá a sensação de um plus ultra pavoroso, onipresente. O argumento de que Lovecraft é uma paródia involuntária de Poe começa a cair por terra por aí. a esfera de ação do terror de ambos é totalmente distinta. Enquanto o terrível que os personagens do último vislumbram é eminentemente um terror doméstico, confinado a casa, é um horror profundamente das fragilidades psíquicas das personagens e de suas impressões sobre aquilo que se lhes mostra e se lhes sugere. H.P Lovecraft tem uma abordagem nitidamente universalista, o alcance de seu terror vai para além da vida das personagens, ele é destinado a afetar o leitor também. As dimensões dos espaços lovecraftianos, as dimensões em que a trama se faz são uma boa prova disso: A presença de seitas macabras que existem ao redor do mundo adorando divindades odiosas, criaturas que podem deslocar suas mentes no espaço-tempo, ameaças vindas de outras dimensões e infinitamente mais poderosas que a humanidade.
Os signos significantes em Lovecraft são mais nítidos. Eles se encontram, inclusive, dentro de um todo razoavelmente coeso, em si uma mitologia própria. Cthulu, Yog-Sothoth, Azathoth, os Grandes Antigos, dentre tantas outras aberrações de sua criação representam antes de tudo a relação do homem com o mundo. Dadas as suas dimensões titânicas, suas cidades ciclópicas, suas tecnólogias além da nossa compreensão, sua vida mais longa que eras e eras da terra, eles representam a impressão lovecraftiana da relação homem-mundo: o homem é insignificante no universo, que apresenta uma lógica complexa muito além da capacidade da lógica humana - não são poucas vezes que as monstruosidades de Lovecraft são postas como impossíveis de serem descritas dentro do conceito simples das três dimensões. Podemos ainda ampliar a afirmação. A lógica do universo deve ser incognoscível para o homem, que, quando da sua percepção, entende a indiferença cósmica ante o humano; o contato com esses monstros-deuses revela a amoralidade do universo, onde todas as forças agem de acordo com uma vontade própria que desprove o universo e, consequentemente, a vida, de qualquer possibilidade de sentido. Lovecraft tem a capacidade quase sardônica de tão sádica de colocar suas personagens dentro de uma engrenagem terrível na qual eles são totalmente impotentes em evitar que ao final serão obrigados a perfurar todos os véus da percepção para se depararem com uma realidade opressiva e destruidora. Diz-se que todos que lêem o Necronomicon de Abdul Alhazred devem enlouquecer ou morrer assim que lêem as suas diabólicas páginas. Não há em cada uma das narrativas de Lovecraft, em seu período de plena maturidade artística, menos de uma personagem que não sofra com as conseqüências de seu desejo por conhecer esta coisa-em-si tantálica: enlouquecem, se suicidam em razão do horror de existir com o conhecimento da verdade, vivem eternamente atormentados por demoníacas imagens. A prosa de lovecraft faz, logo, o reverso da gnosis. Se pudermos dar-lhe um mote seria: Descubro, logo sofro.
Ora, entedemos já uma diferença capital entre Poe e Lovecraft. O primeiro tem o fundamento de sua estética profundamente enraizado na vida pessoal. A Morte Rubra, Ligeia, Morella, O Corvo, traçam nítidos paralelos com a vida de Poe. Sua arte é, portanto, uma expressão fantástica, um travestir de suas angústias e horror particulares. O segundo por sua vez, segue por um caminho totalmente distinto, não segue a via da expressão dos sofrimentos particulares, não; ele toma, sim, o caminho da expressão de um conjunto de proposições filosóficas em prosa. A estética lovecraftiana é, eminentemente, estética onde seus objetos significantes remetem automaticamente a uma realidade terrível, enlouquecedora e estranha. Poe é um escritor do terror sentimental, Lovecraft do terror filosófico. Os fundamentos de ambos são totalmente distintos. Poe é referência para a expressão lovecraftiana, mas não pode ser seu fundamento.
Sendo assim, provoco agora um vazio. Se Lovecraft não é a paródia involuntária de Poe, como afirmou o mestre argentino, quem é o mentor, a fonte da sustentação da estética de lovecraft? um olha atento diz que não há mentor, e sim mentores para a estética lovecraftiana. O fundamento vem destes dois filósofos que fizeram a literatura fazer translações ao redor de suas idéias: Nietzsche e Schopenhauer.
De Nietzsche, podemos com toda a certeza extrair o conceito do apolínico e do dionisíaco. Enquanto há em lovecraft um mundo de profunda beleza, qual as auroras boreais que fazem formas de castelos diáfanos como descreve nas suas fantásticas montanhas de loucura, este mundo de aparência e lógica, vê-se também o fundamento, uma lógica gradativamente mais profunda, até o ponto que se torna inapreensível. A personagem lovecraftiana se aproxima em muito da interpretação nietzscheana de Prometeu, o seu transgedir da ordem, o seu querer descobrir uma ordem de ação que não é da competência da humanidade inignificante o destina aos mais profundos sofrimentos - Danforth enlouquece por olhar para trás nos momentos de sua fulga de uma aberração amorfa em uma cordilheira antártica. Lovecraft ergue a bandeira da incapacidade de se alcançar a verdade e suportá-la. Sua prosa busca, embora imperfeitamente, a colocação daquela aceitação da brutalidade da existência como na interpretação nietzscheana da tragédia de Sófocles. Talvez aqui se ache o mais importante fundamento de Nietzsche a estética cosmicista de lovecraft.
Enganar-nos-íamos se disséssemos que é a única influência de Nietzsche no Cthullu Mythos. Ora, as próprias divindades lovecraftianas são uma adaptação muito literal do conceito de Übermensch. São elas uma manifestação distorcida, uma estátua desmembrada, do sobre-homem nietzscheano. Se Cthullu consegue movimentar vontades humanas de acordo com seus desígneos, se a Raça de Yidth se desloca pela humanidade para em todas épocas acumular conhecimento, fazem isso com um profundo senso de interesse pessoal, disseminam seus valores sobre a manada da humanidade. Há aqui um sobre-homem mal entendido, porém que reforça o aspecto de brutalidade e indiferença e amoralismo do universo.
A novela e o conto lovecraftianos podem ser entendidos como uma adaptação de uma série de conceitos schopenhauerianos. As personagens de Lovecraft concomitante ao encontro com as grandes forças cósmicas se encontram diante da realidade de um sofrimento universal da humanidade. De fato, os destinos delas podem ser entendidos como schopenhauerianos: Se algumas personagens de Lovecraft cometem suicídio é por viver num eterno querer voltar ao momento irrecuperável da conformação com a ordem aparente da condição humana; se alguns enlouquecem é porque o encontro com esse cosmos aberrante não somente destrói as suas vontades de vida, ele danifica a sua capacidade ser um sujeito do conhecer - vide o fato de srem simplesmente o meio de transmissão para o narrador racional sobre o horror do mundo, são a garantia de que por trás do mundo há uma realidade abominável.
Além disso, há uma adaptação do conceito de Schopenhauer sobre a tragédia. Os personagens de lovecraft são postos dento de uma seqüencia causal inexorável. Não há nada neste mundo sem luzes e sem calor que necessariamente não tenha de acontecer. Tudo é causa-efeito, tudo é inexorável, tudo é destino. De fato, são brinquedos do destino, tanto quanto são marionetes de Lovecraft na sua obsessiva afirmação do horror da existência, do terror da verdade. Ao final, a verdade é um quietivo, é o assassinato da racionalidade do mundo, da vontade humana e da significância da vida. Nada menos Nietzscheano, assim como não muito conforme Schopenhauer.
A relação de Lovecraft e Poe não é a relação entre o discípulo e o mestre, reciprocamente. Sem dúvida Lovecraft era um profundo admirador de Poe. A importância de Poe no caso, seria a de proporcionar um interesse fundamental a Lovecraft, gerar em si a vontade de ser um escritor de terror. Poe e Lovecraft não são porém muito distantes entre si. Poe prova que não existe situação subjetiva que não possa ser posta dentro de uma objetividade estética. Lovecraft, por sua vez, expressa que não há proposição filosófica, mesmo que distorcida, que não possa ser traduzida em uma sucessão de objetos estéticos. Ambos provam a capacidade dos artistas em produzir signos com variados e profundos significados.

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