A noite caiu. A meia noite obêmia se deita sobre o mundo - preguiçoso gato preto. É a hora de buscar os licores fortes que me fazem esquecer o nada que me serve o dia em fartas goladas que um monstro me faz tomar. É a hora de dar os banhos que a alma merece, nos líquidos negros que lhe apetece.
Numa esquina destas tantas - destas tantas que gritam a galharda decadência da cidade - entrei num desses recintos que o dia e a luz - a luz é a morte do prazer - um desses lugares cuja luz matutina quase esconde. Ficam eles ali, no ar vibrante do calor diurno, miragens... ilusões de oásis ao longo do dia.
Não esperava jamais que na noite sórdida encontrar, em toda a cidade infame, deparar-me com jóia que lhe fosse mais digna. Anel perfeito para as mãos dessa princesa maculada.
Tudo no ambiente era langor - a luz vagarosa em tons fascinantes quase se espalhando no ambiente, paralisada na sua lassidão; a fumaça dos cigarro fazendo uma dança dos sete véus pelos ares, o aroma, um perfume da crueldade; o licor explodindo estrelas garganta adentro. Um desses lugares onde o homem se lembra do Homem, erguendo, com garbo, a face altiva ante as leis.
Tudo no ambiente era elevação - a música baixa; uma bateria bem marcada, sem pressa, o baixo parecia dar o compasso das contrações de minha carne, uma guitarra dava à nota trejeito de bombardeio aos instintos e ao senso. Os risos incríveis, lascivos, leves, em si hilariantes trariam júbilo aos sabujos da felicidade. O licor infundindo galáxias na mente. Um desses lugares onde o homem pode ser feliz, onde pode fazer da sua felicidade uma rapier contra o mundo, roubar as armas da mão inimigo.
Jamais o dia destilará sentimentos mais pungentes que a noite e suas jóias! Dentro, o prazer do Cointreau e do Cohiba. Fazia eu nada mais que observar a morte de meu relógio - odeio esse Dieu sinistre, effrayant, impassible. Um brinde à morte do relógio! Que os metais dos ponteiros derretam para nos dar prazer! Não possam jamais estes metais fundentes novamente formar essas hórridas adagas. De fato, senti-me tão confortável que me dei a este prazer - prazer que só libertos podem degustar em todo o seu gosto e sua cor - dei-me a este prazer de tirar meus pés dos sapatos e das meias e sentir o carinhoso toque gelado do chão.
A atenção a esses pequenos prazeres fez-me desatento diante do enorme palco do qual poucos metros me distanciavam. Não necessitava ele de qualquer pano, uma despretensiosa escuridão lhe amalgamava segredos e mistérios
Foi nele que ela apareceu.
A fronte altiva - queixo ao céu indicando sua ascendência, os olhos do negror que permite um panorama do abismo e do mistério. O espartilho negro formando uma pele sobre o torso bem formado - com leveza marcava a cintura fina, mais bela que as das ampulhetas, suas inimigas. A pele braca como se uma escultura pudesse ser talhada do leite.
Mais que tudo seu semblante trazia a idéia de distância. Tudo em seus traços era algo sidéreo, distâncias incomensuráveis - a infinita distância que se faz presente nalgumas mágicas proximidades. jamais me esquecerei do primeiro movimento níveo que aquelas pernas nuas fizeram. Aquelas alvas coxas nuas com ligeiros rubores... sensual aquarela.
O passo lento, firme, com uma cadência cheia de entediada alegria. Com os passos dizia "Venerai-me!". Na boca do vermelho carnal um sorriso se esboça - a lascívia da superioridade. O sorriso dizia "estou acima!". O cabelo, do negror do piche, do negror destas noites tropicais, dava-lhe o ar sagrado de um Dervixe. A multidão dos bêbados, a horda dos falidos, no torpor dos venenos, no zênite do intumescido fervor lhe provia das mais festivas litanias, àquela burlesca divindade.
Dançava numa dança de alegria, numa dança de desprezo, num compasso de isolamento, de edênico prazer - de isolamento do edênico prazer. os leques em movimentos velozes - o bote de uma naja é veloz. Os leques em movimentos dignos da mais airosa das serpentes, movimentos ágeis que escondiam o corpo a se desnudar. Revezavam-se provocantes; ora às costas, ora ao colo que prometia babilônias inteiras. cada movimento dos leques somente fazia agitar o místico oceano das catarses presente na alma de todos os insanos.
O mais cruel na sua distância era sua proximidade. Era aquela distância alimentada pela cegueira indiferente. O que produz esse prazer tão distinto e tão intenso que é ser uma melancólica lacuna no meio do espaço? tudo naquela distância infinita era de uma proximidade carnal. Ela, a dançarina, estava mais próxima que o licor amalgamado às minhas nevroses e minhas veias. estava mais próxima que o fumo a esquentar minha boca. Mais próxima que a Morte e o Tempo - feras presas no cárcere de minhas células.
O que há de mais cruel senão aquele perfume? Um perfume duma ligeira doçura, um perfume rasgando o senso e os sentidos qual os dentes elétricos de uma pantera. Um perfume que era mensageiro de todas as promessas. Nada me forma mais a sua imagem que seu perfume. Um aroma qual a correnteza ou a maré bravia - levava-me; destruía todas as minhas falésias.
Quiçá minhas nevroses, todas estas brônzeas neurastenias que tecem a seda de minha mente, quiçá há em mim uma fome mais lacerante que a fome de outros miseráveis... não importa. Algo fez minha rendição àquelas mortais correntezas. Num passo tonto e inseguro; um passo trêmulo qual as cordas de um violão partido. Num passo trêmulo de fervor - ó decadente fanatismo! - com passo inseguro de veneração, num passo sedento dos infinitos espaços. Numa agitação elétrica de ansiedade - O Insaciável é um leviatã faminto - eu fui na nababesca direção daquela dançarina burlesca.
Patético, qual todo fiel, caminhando. Os olhos opacos tamanho o fervor, tamanho o torpor. tropeço em um degrau que o licor e o torpor fizeram invisível. De joelhos prossigo. Por que minha alegria me lacera? De todo modo, sigo caminhando - patético anacoreta.
"Decadente divindade" digo à Ela "Dá-me permissão, a mim cuja alma é irmã do meretrício, da loucura e do jogo, dá-me a permissão não de um beijo, ou do flamiforte, flamívoro sexo que tuas artes ofertam aos eleitos - o tempo dos eleitos para tuas artes místicas se foi em séculos de carne mortificada. Não! Musa das ruas escusas, das vielas sórdidas, das ruelas onde os poetas fazem morada, um abraço destes braços, deste corpo, da matéria do amor e do espaço!"
Não posso garantir se de sua face marmórea obtive uma resposta - talvez misericórdia talvez castigo. Só garanto ter despertado com o Sol - este flamante cancro pustulento no céu - a surgir por sobre os prédios e os empregos. Só posso garantir o maxilar fraturado, o gosto do sangue explodindo infernos garganta abaixo
Desde aquele despertar, para mim, a noite se tornou um reflexo escuro do dia

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