sábado, 15 de maio de 2010

Uma máxima (leia-se: uma manifestação de vaidade)

Liberdade: a ignorância que temos da distância até os muros de nossa vida.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Algumas coisas não foram feitas para serem nominadas

Há algo senão cisão?
cisão - a seiva da vida.
Meus olhos não lembram mais
Mundos que me sussurraram

Este rio de nove fozes,
suas tantas águas negras
rondam a ilha do instante.
a gota do negror férreo
é o grotão da pupila

ó Alma - Nau já sem leme,
singra o rio impassível
cantando só deste fado
dos teus marujos - Os Mortos!

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Quem Faz as Perguntas?


- Por que choras?
- não sei porque choro, somente sei que choro.
- Não seria saudade de um tempo ou de um lugar?
- A minha condição me impede a lembrança
- Não tens sequer família ou pátria?
- Não ter e não lembrar... Que diferença faz? Sinceramente estes conceitos me são uma lembrança vaga. De todo modo, não posso deixar de senti-los como uma mera futilidade
- Achas então que sou fútil?
- Sinceramente, senhor, não sei do que está falando. não me lembro das ofensas que fiz um dia e nem daqueas das quais fui alvo um dia.
- Não choras pois por qualquer ofensa?
- Não sei porque choro, somente sei que choro
- não tens sequer a mínima idéia da causa de teu choro?
- Claro que não! quando este momento começou já estava eu aqui sentado e chorando, você perguntava o motivo do meu choro...
- Quem é você, tolo que chora?
- Agora para voce sou um tolo que chora. Isto lhe é suficiente?
- De fato, devo tomá-lo por um louco. quero ainda assim saber quem é você.
- Bem, agora sou um louco. Se me disser que sou o vento, deveras evanescerei
-Sua resposta não faz qualquer sentido. talvez para entendê-lo tenha de responder e não perguntar. Pergunte-me algo.
- De fato, toda a pergunta que me fez foi uma resposta que continha em si a forma de uma pergunta
- Não importa. quero que me faças uma pergunta.
- Quão breve é o agora?
- não sei o que quer dizer
- Senhor, não tenho idéia do que está falando

sexta-feira, 30 de abril de 2010

O NAVEGANTE DO DESERTO - Parte I: A Bússola de Mil Nortes


Quem destes desertos
onde a raça de cain vaga e passa fome
os limites conhece?
quem já chegou aos limites de um deserto devorador,
devorador do horizonte;
insaciado do infinito,
que devora, sorvendo
a brisa da praia de ondas argênteas?
eis aqui pergunta para quem
pelo deserto flana; mesmo pode ser
para quem o deserto conhece. a resposta vem da boca
de poucos- muitos aqui se entende por ninguém.

De todo modo, , antes da hora do retorno ao pó que

há de me igualar à areia cálida e áspera, nada farei

salvo caminhar deserto a fora, ou ao sentido

incognoscível que existe em minhas pernas.

tudo o que resta é caminhar - estas caminhadas

de suor e sangue, sangue, sede e fome - tudo o que resta é caminhar

avançar pela areia até a Queda que meus passos,

meus passos vibrantes e frementes sem temor

ou timidez só fazem imitar

tudo o que resta é caminhar

Um canto cálido de tristeza

ecoou das rochas distantes

a bloquear o horizonte:

"a velha cigana

é hoje frio pó

seu fatal baralho

assola o deserto"

O rio gélido

que meu corpo pintou

fez-me entender: 'eu tinha medo?'

Na noite cálida do deserto, o vento arenoso
afeito às previsões, fez pousar à minha mão
uma carta em granito e eletro talhada.
Nas linhas metálicas, o desenho:
uma caveira tranqüila e lânguida num catre
"O Opiário", epígrafe da horrenda imagem -
naquelas letras vi algo bom.
Pude sonhar com o ópio.
No sonho do ópio sonhei que sonhava
sonhos sonhando imensidades
e dimensões de pureza.
O devaneio foi meu Fogo de Santelmo -
chama destes mastros desfraldados
que buscam as cascatas
onde cai a noite. O Sonho
é mais um salto que um vôo,
salto para os meus olhos que não conheço

No cume de uma duna
que julguei ser o Strombolli do deserto
contemplei a dimensão do Mal:
O deserto em ciclópicas explosões
gritava nos seus dantescos grotões -
sua fome é a fome
do infinito pelo Infinito -
o absoluto quer o Absoluto,
pois o reflexo quer
a indiferente forma que lhe toca.
O deserto em insaciável fome
morde os pilares do céu que,
azúlea grandeza, esmaga-lhe.
Os gritos da Morte e do Vazio
estão já mais lacerantes.
Os ecos vibram elétricos
nas cordas de sangue
desta carne eremita.
Uma estrela brilhava numa duna
sugeria o horizonte em cristais -
Ó Mentilevados!





sábado, 10 de abril de 2010

Um Haikai




Esta rua vazia -


contornos de sombra dançam -


o silêncio grita

domingo, 28 de março de 2010

A Loucura

Há reinos curiosos que os homens ignoram tanto quanto temem. Apavoram-se com sua lógica cheia de arabescos, barrocas contorções, retóricas cheias de emoção e histeria. Quão estranho é este medo humano da loucura, quão razoável este pavor às idéias dos insanos. Esta verdade só me confirma a verdade de que o horror é posterior ao conhecimento - nada impedindo que depois do conhecimento ele perdure. De fato, não faço aqui nenhuma conclusão digna dos anais da psicanálise, seus arquétipos e patologias. O escuro na infância, a sensação de desproteção que as trevas provocam em seu mundo de formas vacilantes e contornos dúbios nos fazem a melhor das provas. Enfim, é curioso o medo que o vulgo tem da loucura, da loucura e sua tragédia e sua comédia.
Duvido haver alguém conhecido menos que dois loucos. A memória humana parece uma pinacoteca da insânia alheia. Dada aquela contemplação surpresa lembramo-nos daqueles causos tão absurdos. Eu, por exemplo, talvez por substrato geral do destino de todos os escritores, posso citar pelo menos quatro casos de loucura.
Caminhando por algum destes charmosos bairros cariocas, onde o sol e a moda reluzem em toda a sua grandeza sobre todos os corpos com alegria, vi um caso peculiar de um homem, um desses famintos que infectam o mundo, passantes cheios de pestilência a violentar o belo nas suas mais elevadas aras. Muito bem, este pateta se esgoelava em prantos e arranhões, invocando a todos os elegantes transeuntes, implorando o dinheiro. Com a naturalidade que existe no comportamento do brasileiro, nossos compatriotas fizeram as vezes de surdos. Ora, não é este homem um insano? na fome angustiante ele pede o dinheiro, porém não pede comida? Podemos tratar por duas conclusões que só nominalmente podemos chamar de lógicas: gostaria este falido de escolher o que comeria, seu devido acompanhamento, o que beberia junto, o que o faz um louco por não ver sua própria condição e o desespero de sua necessidade. Aqui podemos ver a loucura da nesga dessa dignidade boçal. Noutra perspectiva a fome de nosso miserável pensava comer o dinheiro para matar a fome. Aqui caso sem muito valor - ambos somos amantes da novidade, este ópio do cérebro - sem muito valor por tratar-se da hipótese de uma loucura tradicional, sem importância.
Outro caso de loucura é desses que um homem sempre se lembra. Sim, envolvia uma mulher. Melhor, era uma menina ainda, no auge da beleza de sua juventude. Em espírito principalmente, por fazer tudo aquilo que fazia com ares de brincadeira. Entretida e compenetrada qual a criança com seu brinquedo. Detestava, disso lembro-me bem, de tudo que não podia tomar por brincadeira. Seu grande jogo era o corpo, adorava estes jogos lúdicos e sadios dos homens e das mulheres, sem qualquer preferência por uma modalidade do jogo, sem queixas quanto ao outro jogador, ou mesmo aos outros jogadores. Cada jogo, gracejo, esporte eram fonte de um frenesi mais potente em sua beleza sórdida que todo o frenesi da vida íntima. Como toda criança, era egoísta e se entediava fácil. Não do jogo! Jamais do jogo! entediava-se dos jogadores. Qual a menina que quer mais bonecas pois as outras já estão antigas, qual o animal faminto, ela dispensava os parceiros após uma, duas, três rodadas, já enfastiada. Ria ao lembrar do choro dos amantes e das amantes enquanto estes declaravam seu amor premeditado a esta Divindade-Bacantes. Não vou dizer que há aqui uma loucura do amor. Por comodidade, darei aqui a alcunha de loucura báquica.
Agora tomo consciência. Não são quatro casos de loucura, são três. Melhor, não há certeza se existem quatro casos de loucura que lembro em minha vida. vamos colocar aqui como número certo o três. Dois já passados, um outro ainda, eufórico, quer vir.
O caso presente ocorreu comigo. Deveras, fui eu a vítima desta subversiva acusação de insanidade.
Estava em meio de um destes momentos tão comuns na vida que nós temos de ouvir a egocentria alheia em toda a sua frustração. Noutras palavras, fazia as vezes de ouvinte a um amigo querido. Como todo mortal, falava ele da única coisa que uma pessoa quer falar, seu diálogo tinha o fundamento universal de todos os diálogos: a dor pessoal. Bom, deixei-me escutar aqueles sofrimentos, toda a sua profundidade que poderia ser capitada simplesmente pelas contorções da boca e das rugas ao redor da face, do friccionar das mãos e o estalar dos dedos. Neste grande momento da solidariedade inexorável um tremendo impulso ao erro me acometeu. Veio-me o tão recriminável, imoral desejo de ser sincero. No breve intervalo que meu amigo faria entre uma de suas frustrações e um de seus tédios, sem controle fui tão sincero quanto pode um homem, mesmo que ele seja honesto e prudente. Tratei de falar sobre a indiferença universal, sobre a necessidade de toda a grande ação trazer um grande sofrimento ativo - de todas aquelas coisas que falam de liberdade e coragem. Neste momento, nada fiz senão receber tapas e ouvir gritos e ofensas deste grande sofredor. Saí de lá sendo chamado de louco e fascínora.
Não faço as vezes de tímido: Admiro os veem a fluida e multicor loucura da realidade

quinta-feira, 25 de março de 2010

Correspondências - Charles Baudelaire

A Natureza é um templo onde vivos pilares
Deixam filtrar não raro insólitos enredos;
o homem o cruza em meio a um bosque de segredos
Que ali o espreitam com seus olhos familiares.

Como ecos longos que à distância se matizam
numa vertiginosa e lúgubre unidade,
tão vasta quanto a noite e quanto a claridade,
Os sons, as cores e os perfumes se harmonizam.

Há aromas frescos como a carne dos infantes,
Doces como o Oboé, verdes como a campina,
e outros, já dissolutos, ricos e triunfantes,

Com a fluidez daquilo que jamais termina,
como o almíscar, o incenso e as resinas do Oriente
que a glória exaltam dos sentidos e da mente.