sexta-feira, 30 de abril de 2010

O NAVEGANTE DO DESERTO - Parte I: A Bússola de Mil Nortes


Quem destes desertos
onde a raça de cain vaga e passa fome
os limites conhece?
quem já chegou aos limites de um deserto devorador,
devorador do horizonte;
insaciado do infinito,
que devora, sorvendo
a brisa da praia de ondas argênteas?
eis aqui pergunta para quem
pelo deserto flana; mesmo pode ser
para quem o deserto conhece. a resposta vem da boca
de poucos- muitos aqui se entende por ninguém.

De todo modo, , antes da hora do retorno ao pó que

há de me igualar à areia cálida e áspera, nada farei

salvo caminhar deserto a fora, ou ao sentido

incognoscível que existe em minhas pernas.

tudo o que resta é caminhar - estas caminhadas

de suor e sangue, sangue, sede e fome - tudo o que resta é caminhar

avançar pela areia até a Queda que meus passos,

meus passos vibrantes e frementes sem temor

ou timidez só fazem imitar

tudo o que resta é caminhar

Um canto cálido de tristeza

ecoou das rochas distantes

a bloquear o horizonte:

"a velha cigana

é hoje frio pó

seu fatal baralho

assola o deserto"

O rio gélido

que meu corpo pintou

fez-me entender: 'eu tinha medo?'

Na noite cálida do deserto, o vento arenoso
afeito às previsões, fez pousar à minha mão
uma carta em granito e eletro talhada.
Nas linhas metálicas, o desenho:
uma caveira tranqüila e lânguida num catre
"O Opiário", epígrafe da horrenda imagem -
naquelas letras vi algo bom.
Pude sonhar com o ópio.
No sonho do ópio sonhei que sonhava
sonhos sonhando imensidades
e dimensões de pureza.
O devaneio foi meu Fogo de Santelmo -
chama destes mastros desfraldados
que buscam as cascatas
onde cai a noite. O Sonho
é mais um salto que um vôo,
salto para os meus olhos que não conheço

No cume de uma duna
que julguei ser o Strombolli do deserto
contemplei a dimensão do Mal:
O deserto em ciclópicas explosões
gritava nos seus dantescos grotões -
sua fome é a fome
do infinito pelo Infinito -
o absoluto quer o Absoluto,
pois o reflexo quer
a indiferente forma que lhe toca.
O deserto em insaciável fome
morde os pilares do céu que,
azúlea grandeza, esmaga-lhe.
Os gritos da Morte e do Vazio
estão já mais lacerantes.
Os ecos vibram elétricos
nas cordas de sangue
desta carne eremita.
Uma estrela brilhava numa duna
sugeria o horizonte em cristais -
Ó Mentilevados!





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