Quem destes desertos
onde a raça de cain vaga e passa fome
os limites conhece?
quem já chegou aos limites de um deserto devorador,
devorador do horizonte;
insaciado do infinito,
que devora, sorvendo
a brisa da praia de ondas argênteas?
eis aqui pergunta para quem
pelo deserto flana; mesmo pode ser
para quem o deserto conhece. a resposta vem da boca
de poucos- muitos aqui se entende por ninguém.
De todo modo, , antes da hora do retorno ao pó que
há de me igualar à areia cálida e áspera, nada farei
salvo caminhar deserto a fora, ou ao sentido
incognoscível que existe em minhas pernas.
tudo o que resta é caminhar - estas caminhadas
de suor e sangue, sangue, sede e fome - tudo o que resta é caminhar
avançar pela areia até a Queda que meus passos,
meus passos vibrantes e frementes sem temor
ou timidez só fazem imitar
tudo o que resta é caminhar
Um canto cálido de tristeza
ecoou das rochas distantes
a bloquear o horizonte:
"a velha cigana
é hoje frio pó
seu fatal baralho
assola o deserto"
O rio gélido
que meu corpo pintou
fez-me entender: 'eu tinha medo?'
Na noite cálida do deserto, o vento arenosoafeito às previsões, fez pousar à minha mão
uma carta em granito e eletro talhada.
Nas linhas metálicas, o desenho:
uma caveira tranqüila e lânguida num catre
"O Opiário", epígrafe da horrenda imagem -
naquelas letras vi algo bom.
Pude sonhar com o ópio.
No sonho do ópio sonhei que sonhava
sonhos sonhando imensidades
e dimensões de pureza.
O devaneio foi meu Fogo de Santelmo -
chama destes mastros desfraldados
que buscam as cascatas
onde cai a noite. O Sonho
é mais um salto que um vôo,
salto para os meus olhos que não conheço
No cume de uma duna
que julguei ser o Strombolli do deserto
contemplei a dimensão do Mal:
O deserto em ciclópicas explosões
gritava nos seus dantescos grotões -
sua fome é a fome
do infinito pelo Infinito -
o absoluto quer o Absoluto,
pois o reflexo quer
a indiferente forma que lhe toca.
O deserto em insaciável fome
morde os pilares do céu que,
azúlea grandeza, esmaga-lhe.
Os gritos da Morte e do Vazio
estão já mais lacerantes.
Os ecos vibram elétricos
nas cordas de sangue
desta carne eremita.
Uma estrela brilhava numa duna
sugeria o horizonte em cristais -
Ó Mentilevados!

Muito bom o texto =)
ResponderExcluir